sexta-feira, 26 de maio de 2017

Ter ou não ter aria

Maio 2017

Quando era pequeno, ouvia dizer, com frequência, que "este não tinha ária" para isto ou para aquilo e que aquele não tinha "ária" nenhuma, ou que estava sem "ária". "Ária" significava ter jeito para fazer alguma coisa ou, então, ter preguiça de o fazer. Tratava-se de uma palavra polivalente (que só ouvi lá na terra onde nasci) cujo significado estava dependente da entoação e das circunstâncias em que era dita.

Por exemplo, o J.S. Bach tinha ária para a música



(Ária na corda sol - suite nº.3 para orquestra de J. S. Bach)

Já eu, e embora tenha tocado em grupos e tal, sempre tive a noção de que não tinha grande ária para a música. Quer dizer, ária para criar música; embora tivesse alguma ária para tocar um belo instrumento de sopro.

(NOTA: para teste de stresse - e um stresse suave é bom para a saúde - pôr o som alto e ouvEr até ao fim)


(Não é um javali no mato a roncar, sou eu a assobiar)



sexta-feira, 19 de maio de 2017

Quando a luz passar rente à realidade

Maio 2017


Quando estiver quase, quase, quando o Sol se tiver posto e os últimos raios passarem rentes à atmosfera, as cores da serra diluir-se-ão, o incêndio apagar-se-á. Não é uma profecia, é a realidade. A Física ensina-nos isto. Sei-o mas, caso aqui estivesse nesse momento, nesta curva da estrada onde agora o Sol se põe, espantar-me-ia sem pensar na Física.


Tal como agora me espanto com as cores incendiadas pelo Sol





Quando a luz dos olhos meus e a luz dos olhos teus lará-lará lará-lará  lá láaaaaaaaa ...






quarta-feira, 10 de maio de 2017

Corços (vultos) na mata

Maio 2017


O vento soprava suave, enchendo a paisagem como se fosse o mar ouvido ao longe. Um som longínquo, grave, vibrações que se sentem mais do que se ouvem. Sentem-se com os ossos. O caminho é um daqueles caminhos que vai por ali fora, que serpenteia a meia encosta sobre o vale que se abre a Sul, o vale do Coentral. Pedala-se como se veleja no mar (digo eu, que que nunca velejei), fazendo as rugas da serra como quem sobe e desce as ondas e se se estivesse sempre no mesmo sítio. Do lado de cima do caminho há uma mata de pinheiros pequenos, não necessariamente jovens porque a esta altitude nunca crescem muito e, do lado de baixo, as encostas estão cobertas de arbustos, de carqueja. Para além da carqueja há mais carqueja e é carqueja por aí fora até ao alcance da vista. A rasgar a paisagem.



Atravessou-se-me a ideia de que pedalar por ali é como que tocar violino; digo eu, que não toco violino. Ou como dançar uma valsa (dou um jeitinho). Ou as duas coisas, a kind of mood for love:


(Encontrei por acaso ao procurar Neil Young: In the Mood for Love - Shigeru Umebayashi)

Cada curva do caminho cria a expectativa de se dar de caras com algo inesperado. Por exemplo, uma vez dei com milhões de borboletas amarelas pousadas no chão; à medida que pedalava elas esvoaçavam e envolviam-me em nuvens e eu, em estado de espanto, sem saber o que fazer. Outra vez dei com uma manada da veados, talvez meia dúzia. Quando me viram fugiram espavoridos encosta acima excepto um muito jovem que não conseguia subir a barreira do caminho. Segui, ele corria à minha frente e, então, reparei que os outros não se tinham ido embora, acompanhavam-nos correndo por entre os pinheiros do lado de cima do caminho numa linha paralela ao caminho. E eu, em estado de espanto, ia pedalando sem saber o que fazer. Às tantas o juvenil que corria à minha frente lá conseguiu subir a barreira numa local mais baixo e juntar-se à família. Oura vez, após uma curva, vi um animal que vinha pelo caminho em direcção oposta. Vinha por ali com o ar descontraído de quem passa ali muitas vezes. Às tantas, quando deu por mim, parou. Sentou-se.  Eu parei também. Desci da bike e tentei encontrar um pau. Ficámos ali imóveis a uns 50 m mudo outro. Eu tentava receber o que era.  Sem óculos e com umas lentes que já estão descalibradas não chegava a nenhuma conclusão. Ele, castanho, ágil, observava-me. Percebia-se muito bem que avaliava a situação.  Fitámos-nos. Ficámos nisto bastante tempo até que, assim de repente, ele foi-se embora em trote como que a pensar: que se lixe, não quero chatices, tenho mais que fazer. Para raposa pareceu-me grande demais, para cão tinha uma atitude atenta e inquisidora  de animal selvagem.

Depois há o azul. Por ali pedala-se em azul



Mas a história dos corços. Retomando: o vento soprava suave, quase que se podia dizer que tudo estava em silêncio. Tinha parado. Distraído comia uma banana e bebia uns golos de água. Percebiq ue havia alguma coisa por entre os pinheiros, do lado de cima do caminho. Um vulto fugidio, depois outro. Silêncio. Apontei para lá o telemóvel. Ao início percebem-se os vultos ao centro, na imagem. Depois, quando me movo surgem novamente. É assim, estar ali e perceber que os corços passam silenciosos e que os vemos apenas de vez em quando, por acaso. Estamos ali por acaso e eles passam por acaso. Fica uma ideia de liberdade no ar, em fundo, como o vento.



domingo, 7 de maio de 2017

Aldeia em ruínas e animais quase extintos

Maio 2017


Já antes, numa curva do caminho, tinha dado com a Silveira-machu-picchu-de-cima-da-serra da Lousã. Desta vez dei com a Silveira de Baixo.
Não estava preparado para o que encontrei.

As Silveiras ficam numa meia encosta em local remoto. A de Cima, ao cimo da encosta, encavalitada num cabeço; a de baixo metida no vale, em baixo. Fazem parte das aldeias de xisto da serra da Lousã que foram abandonadas por volta dos anos 50-60 do sec. XX. Entretanto, umas foram parcialmente reabilitadas (caso do Talasnal e Casal Novo) e parcialmente habitadas- Outras estão em ruínas. É o caso da Silveira de baixo. Já aqui postei sobre uma outra em ruínas, o Tojo de Cima.

Há provavelmente outros posts por aí sobre as aldeias e, apesar de com um pouco de jeito sentir que estava a fazer uma viagem no tempo, não estava preparado para os acontecimentos na Silveira de Baixo.

Ao princípio foi como o princípio em muitas outros encontros imediatos na curva do caminho com as ruínas das aldeias; surgem uns vultos, umas paredes que já o foram, uma geometria feita de regularidades e rectas que contrasta com as silvas e os ramos dos arbustos e as árvores e as pedras e por aí fora. Tudo misturado. Os troncos das árvores a abraçarem as pedras das paredes.



Chega-se pelo lado Sul por um caminho largo e dá-se com uma placa numa árvore



Por cima, pelo lado Norte, há um caminho estreito que fura por entre um carvalhal. Um caminho antigo ladeado por muros de pedra.


Às tantas o caminho abre e leva-nos ao que deve ter sido a rua principal


Encostei a bike e, pé ante pé, literalmente, fui espreitar. Havia por ali qualquer coisa estranha. Tinha a sensação de estar a entrar em algum lado, apesar de à minha volta só haver ruínas. Ainda pensei em sair dali, do meio da serra, um local isolado, sózinho, mas esta mania de caminhar à beira do abismo agarra-se-me à pele.



Havia um largo, ou um cruzamento de ruas, uma coisa desse tipo. Deveria ter sido um local importante na aldeia. Deve-se ter ali cruzado muita gente, muitas ideias e muitos olhares.
Do lado direito, uma porta baixa na parede.


Mais à frente uma outra porta que dava para algum lado



À esquerda uma rua. A vegetação cobria tudo excepto o que parecia ser uma clareira, um ninho? Era estranho.


Saí dali à pressa. Voltei à entrada da aldeia


E foi então que, estava eu a entrar no que me é habitual - o Sol, os caminhos, a aragem a soprar, a planear se sigo por ali ou por além, ora deixa cá ver que horas são, às tantas subo mais um pouco e desço pela Ortiga ... - que tudo começou.
Nunca se está preparado para isto.
Estava a comer a banana quando percebi uma sombra no chão. Móvel e enorme. Não podia ser a sombra de uma nuvem. Percebi que aquilo vinha sobre mim. Um som de asas a bater como se fosse uma onda. Mal tive tempo de agarrar um pau, com o Sol nos olhos não via detalhes, apenas uma sombra.



Pousou no pau. Poderia ter-me atacado mas parecia trazer uma missão. Fitou-me com ar de quem pergunta: que raio andas aqui a fazer? Desaparece pá!  Não era um olhar ameaçador, antes de aviso. Ou melhor, nem sequer chegou a pousar porque levantou de imediato e desapareceu por entre as paredes.

Estava ainda com o pau nas mãos, com a cabeça às voltas quando, paulatinamente, como quem passeia numa marginal e se vai sentar numa esplanada a beber um fino e comer uns tremoços, ele, ou aquilo, passou. Um galossáurio. Ou galinhassauro, não sei bem.
Xô, xôôôôooo ...
Olhou-me de lado, com ar de quem não quer saber o que se passa. E eu ali. Eu é que não sabia o que se estava a passar.


Tudo ocorria rapidamente. Eu mal me mexia e apareciam e desapareciam animais como se fosse um daqueles clips de vídeo da moda em que as imagens passam durante um segundo e quando estamos tentar perceber de que se trata vem outra e assim sucessivamente.

No segundo seguinte, ele assomou à entrada do largo onde eu tinha estado a espreitar. Os olhos transparentes, reflectindo na retina o azul da minha camisola (como os gatos à noite que refletem a luz). Aquele azul, um azul semelhante ao do céu, hipnotizava. Sabia que o pau de nada me serviria caso ele avançasse mas, tal como tinha acontecido nos encontros anteriores, não havia ali ferocidade, antes espanto e desconforto pelo incómodo de ter por ali aparecido um tipo de bike. Eu é que instintivamente usava o pau como se fosse uma arma. Ridículo.


De alguma maneira eu estava a ficar tranquilo. A recuperar o fôlego. Mas percebi que havia ali um plano, um aviso para me por dali para fora e o último actor, esse sim, foi agressivo. Saltou na minha direcção como se fosse um canguru. Ou melhor como um esquilo voador. Aquilo era um aviso para sair dali. Desta vez lutei, quer dizer tentei afugentá-lo, picando-o com o pau e evitando que enrolasse os tentáculos à volta do meu braço. Do polvo é que não estava nada à espera. Aquilo não era verossímil. Os polvos respiram por brânquias. Talvez um polvo primitivo com capacidade para respirar oxigénio através de pulmões, como os caracóis, ou através da pele, como as lesmas.



Assim que me desembaracei do polvo - ou antes, que o polvo se desembaraçou de mim - pedalei dali para fora pelo lado Sul, por onde era melhor o caminho. Assim, afastar-me-ia mais rapidamente. Dei a volta por cima e ainda olhei para trás, para a Silveira de Baixo. Estava tudo tranquilo: Percebiam-se casas em ruínas no meio do matagal. Tudo normal. Pensei: o melhor é não contar isto a ninguém, quem é que vai acreditar?


Talvez um dia volte à Silveira de Baixo.


terça-feira, 2 de maio de 2017

Live horizons at the stone chair

1 de Maio, 2017


Do caminho parece um monte de pedras ordinário. À primeira vista porque olhando em redor é o único monte de pedras que há por ali.
Encostei lá a bike e pus-me à sombra, na mata. Abri o farnel: água da fonte do Candal, um pão de leite com marmelada e uma banana. Um banquete.



Este é o Sul da serra da Lousã visto do planalto aos 900 m de altitude (em panorâmica). As chuvas da véspera tinham limpo o ar. Tinham também aguçado os odores. Um dia soalheiro com um fiozinho de frio.


Cheguei-me às pedras. Ao Sol deveriam estar quentes e queria encostar-me para sentir o calorzinho (a brisa arrefecera-me o suor nas costas).


E foi então que, procurando um bom sítio para me sentar ou deitar, do outro lado dei com o cadeirão (no assento tenho o cantil e a banana)




Aproveitando um patamar para servir de assento, alguém tinha colocado umas pedras para alisar o assento e outras para servir de apoio aos antebraços.
Todo virado para o Sol.
O cadeirão de pedra.


Que local extraordinário. Sentei-me colado à pedra e fiquei por ali virado para Sul. A pedra estava quente e um calor muito bom chegava-me às entranhas pelas costas. A brisa estava suave, ouviam-se uns chilreios e uns zumbidos trazidos pela brisa suave. De resto, silêncio.

Assim:
(bati os tacões para se perceber o silêncio)


Deixei tudo com estava. Hei-de voltar. Pode ser que um dia encontre o cadeirão ocupado !




segunda-feira, 1 de maio de 2017

O Cabeço da Ortiga e outros cabeços

Abril 2017

Quem vem e atravessa o vale pela estrada da Beira, a mítica EN17, é o Cabeço da Ortiga que se lhe impõe quando, ao longe, olha para a serra da Lousã. Na perpendicular à EN 17, na aproximação à serrra, o cabeço da Ortiga vai enchendo o horizonte, ocupando cada vez mais céu.

O Trevim, o cume da serra da Lousã, esconde-se por detrás da Ortiga. Quer dizer, do vale não se vê o cume da serra. O Ortiga fica aos 930 m de altitude; o Trevim aos 1200m. No vale, a altitude média anda pelos 150 m.

A subia ao cabeço da Ortiga faz-se com a qualquer cabeço; por regra em espiral. É que um cabeço é um cabeço.
No início tentei aproximar-me rapidamente, tentando seguir em linha recta, mais ou menos, perpendicular às curvas de nível, seguindo um caminho que está quase a deixar de o ser. Parei várias vezes para furar por entre acácias caídas no caminho (tentei remover algumas ... eu ali agarrado aos troncos tentando dobrá-los sem sucesso, ele mais forte do que eu, aquilo eram alavancas gigantes, ia-me aleijando, feito parvo ali sózinho no meio da serra a lutar contra acácias) derrapei em cascalheiras e regos feitos por enxurradas de água e um dia destes não há mais caminho. Às tantas apanhei um grande susto; logo ali ao meu lado, no meio da densa mata de pinheiros e acácias jovens um grande reboliço. Senti o bater de cascos com força no chão e vultos a abrir por entre as árvores e os arbustos. Ia numa subida íngreme, a pedalar muito devagar, tentando manter-me em cima da bike e, por isso, seguia silencioso. Só me perceberam quando estava em cima deles. Eriçaram-se-me os pelos. Pelos vistos a eles também. Foi mesmo ao meu lado. Pensei imediatamente: javalis ou veados? Pelo tamanho dos vultos que vi a esgueirarem-se eram uns 3 ou 4 veados. Fiquei mais tranquilo. Passou-se tudo rapidamente. Fiquei ali agarrado à bike, imóvel, ainda com as cabeça às voltas a tentar traçar um plano caso se tratassem de javalis.

Um pouco mais à frente o caminho abriu (o vale também abriu) e transformou-se num belo estradão em cascalheira.


Como eu gosto de pedalar por estes lados. Do lado direito já se avistava a cumeada aos mil metros que leva ao Trevim.


Do lado esquerdo, lá estava ele. A eólica marcava o cabeço da Ortiga.


Iria ainda dar uma grande volta antes de lá chegar,


contornando-o em espiral, e afastando-me para os lados do Trevim, onde as nuvens baixas, de um céu tempestuoso, cobriam o cume


Cheiro intenso, agreste. O vento soprava com vigor.  Ganhando altitude, estava no último troço. Agora era em frente até ao cabeço.


Este não é um cabeço qualquer. É um cabeço com marco geodésico. No cabeço há um afloramento granítico. Umas pedras de granito na serra do xisto.


Quem no vale vier e atravessar a EN17 verá no horizonte a serra da Lousã, verá o cabeço da Ortiga onde estou. Eu sou insignificante visto de lá, do mesmo que quem no vale vier é para mim, que olho o vale imenso à minha frente, insignificante. E, no entanto, eu e quem no vale vier somos as estruturas orgânicas mais complexas que se conhecem no Universo. E o pedaço de Universo dentro da minha cabeça gosta do resto do Universo que vê a volta.




No marco geodésico, olhando no sentido contrário ao vale, vê-se que por detrás deste cabeço há outros cabeço.



Vários cabeços nus com uma coroa de cedros.



E, mais além, no horizonte seguem as serranias



Pouco a pouco, do lado do Trevim, o tempo estava a fechar. O Sol por entre as nuvens incendiava a flor amarela da carqueja nalguns sítios


enquanto que as encostas mais acima, tapadas pelas nuvens, estavam negras. Um contraste belo e perturbador.


Disparei várias vezes o tlm à medida que as sombras das nuvens percorriam as encostas.



Fui-me embora a assapar (a Zappar !!!???). Dos 900 aos 200 m a voar baixinho pelas cascalheiras abaixo.
A Zappar. Nunca aqui coloquei "o" mestre. Lá vai, num concerto em 1979 (... don´t you boys know any nice songs?):






terça-feira, 25 de abril de 2017

Flor da carqueja

Abril 2017

Por esta altura do ano, lá para os lados do Coentral, do outro lado da serra, as encostas estão cobertas de carqueja em flor. É um tsunami de luz. Até onde a vista alcança a flor amarela da carqueja cobre a serra.

Ora deixa cá ver Vincent João L, mais um toque ali (que saudades que tenho disto !)



dois passos atrás, para ver o todo e


dou por acabada. Pronto. "Pronto" deve ser uma palavra que nenhum pintor pronuncia. Não estou a ver o Picasso ou o Van Gogh a dizerem "pronto". Quanto muito: pronto, estou farto disto, quero fazer outra coisa. Isto é um assunto sobre o qual às vezes penso. Quando é que um artista pensa: já está! Acho que nunca pensa isso. E, já agora, no meu curriculum de "pintor" tenho o prémio Nacional da "serra da Estrela vista pelas crianças". Tinha 12 anos, fazia o ciclo preparatório e ganhei o prémio. Um concurso a nível nacional. Usei um rolo de papel de embrulho (deveria ter uns dois metros por dois) que fui enchendo de montes e árvores e nuvens e Sol e riachos e ovelhas e pedras e cães e, no centro, enorme, gigante, em primeiro plano, um pastor. Ainda me lembro que o prémio foram 300 escudos, uma fortuna na altura. Portanto, como é fácil de ver, estou ao nível de um Picasso, mais coisa menos coisa.

Mas vamos ao que interessa. O vale do Coentral na serra da Lousã. Pedalar até lá é um grande risco. É que pode não se ser capaz tolerar tanto.
Por exemplo, pedala-se por ali num caminho à sombra das árvores, num ar límpido, com veados a espreitarem por entre as árvores da floresta aos mil metros de altitude e, às tantas, na curva do caminho, abre-se o vale.


Coberto de carqueja em flor. É um amarelo que nunca se acaba.

Já aqui escrevi sobre a aldeia do Coentral e a profissão extraordinária que ocupava alguns dos seus habitantes no início do século passado: os neveiros e os poços da neve. A corte em Lisboa usufruía do gêlo levado daqui no Verão, do Sto. António da Neve (armazenado em poços), na serra da Lousã. Primeiro em carros de bois até ao rio Zêzere e, daqui, em barcaças até Lisboa pelo Tejo. Uma história extraordinária.
Ali, vê-se à direita o Coentral. Ao centro o cume, o St. António da Neve


Há cerca de um mês estava branco


Hoje está amarelo, e perfumado. Nos dias como hoje a brisa quente varre as encostas em ondas, uma vezes mais intensa do que outras, trazendo o aroma.


90 graus para a esquerda, para Sul, o mesmo.


Deste lado, ao contrário das encostas Norte, as acácias ainda (e digo "ainda") não invadiram (e deveria dizer "fagocitaram") tudo. Talvez um dia o amarelo que cobre estas encostas seja o da flor das acácias, tal como acontece no lado Norte.

A minha avó não fazia coelho de cebolada que não levasse carqueja. Levei uns raminhos para casa. O ideal teria sido levar também algum coelho que por ali andasse (se fosse capaz).
Na altura em que a minha avó fazia o coelho com carqueja, as pessoas tiravam o boné e curvavam-se perante outras (os srs fulanos que tais), caladas, cabisbaixas, como que agradecendo alguma coisa. É uma das recordações mais intensas que tenho de antes do 25 de Abril de 1974. Já na altura me fazia uma grande aflição, me deixava um vazio no estômago (e sem perceber porquê). Uma ignomínia.